domingo, 29 de outubro de 2017

viver é consumir e consumir é enriquecer ainda mais os ricos

O conceito de Multidão de Negri se refere ao desejo de um mundo-espaço liso, ou seja, sem barreiras geográficas. A multidão: as cores do mundo – negro com branco com amarelo; n cores, misturas de cores, a hibridização é a cor da multidão. A multidão: os sexos, os gêneros, todos eles e sempre em relação, o que importa é a relação. A multidão: os pobres, os que desejam a pobreza. Não há segmentos duros na multidão, classes, castas; não há hierarquias, comando central, a multidão é o rizoma. Os anarquistas são internacionalistas e lutam contra todo tipo de opressão; os anarquistas fazem parte da multidão, talvez sejam sua linha mais ativa na luta contra o controle. O corpo anarquista é um corpo em luta constante.
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O povo – a ideia de povo, a afirmação do povo – é um tipo de individualismo. Desejam o bem-estar de seu país, só se interessam por seu país e por seu povo. Só pensam como o seu Estado-nação deve ser reformado. Dizem que pensam no mundo, mas, em primeiro lugar, está sempre o seu país. “Eu, minha família, meus amigos, meu país...”, as preocupações se centram nisso. Os sindicatos fazem parte da mesma lógica: lutas setorizadas, com suas demandas, cada um cuidando do que é seu. O feminismo é, muitas vezes, localizado, não se relaciona com as outras lutas; certos movimentos étnicos fazem o mesmo. Isso é a lógica do “eu e os meus”. A necessidade de posse. “Meu carro, minha casa, meu corpo, minha mulher, minhas ideias”; e quando é dito: “nosso”, esse “nós” já exclui muita coisa e é um sinal de individualismo, um individualismo "inclusivo". “Minha cidade, ou nossa cidade, nosso país, nossa identidade”.... é estranho alguém dizer isso. Sua cidade, seu país? Mas qual poder tem em relação à estrutura urbana, em relação às leis, à administração, à política, a economia? E não há nação soberana, elas dependem das diretrizes do Império. A cidade, as grandes cidades são moldadas existindo poucas diferenças de natureza entre elas, são indiferenciadas, não é a "sua, nossa" cidade, é "qualquer" cidade. Que poder tem sobre a identidade do povo, identidade que compartilha com os outros e diz que é sua, “nossa”? A identidade é aceita naturalmente e desejada.
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“Meu corpo? ”. O corpo, o simbólico em relação ao corpo, isso é imposto desde cima; a máquina abstrata produz, comanda a ideia de corpo e, portanto, também, o dito dono do corpo. Isso é aceito naturalmente e desejado. O corpo humano é o mesmo desde sempre? A tecnologia, o ambiente, as ciências, as formas de trabalho, de sujeição, muitas coisas produzem diferenças no corpo humano. Os corpos dos antigos, dos medievais, dos modernos, dos pós-modernos são iguais? O corpo de um trabalhador braçal é o mesmo de um trabalhador intelectual? O corpo pós-moderno é talhado pelo bem viver da publicidade e da área da saúde, ele é moldado por novos esportes, novas drogas, novos medicamentos, pelas mudanças no tecido urbano, o corpo pós-moderno é esculpido por novas doenças, vírus, tipos de alimentação; mas a beleza do corpo pós-moderno é a hibridização que anuncia o fim das barreiras geográficas, é o corpo com n sexos, sem identidade, o corpo-monstro criado a partir das micro revoluções Queers. O corpo que ouve em um i pod é um corpo diferente do que ouve em um walk man. O cavalo de corrida e o cavalo de arado, o jogador de futebol e o skatista, a vagina que faz pompoarismo e a vagina passiva – cada corpo tem suas especificidades. As diferenças físicas dizem respeito à relação com a vida; e os corpos estão sempre em relação, não se limitam a um organismo, organizado, estratificado, hierarquizado. Dizem que são diferenças corporais pequenas, infinitesimais; talvez sim, mas esse discurso revela que não dão importância exatamente ao mais importante: o capilar, o molecular.
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A luta setorizada. “Vamos todos juntos lutar, mas cada um por seus direitos; se todos lutam por seus direitos, nos encaminhamos para um bom mundo. ” Cada profissão luta por si, cada classe por si, cada sexo, gênero, cada raça .... Mas por qual motivo todos não lutam realmente juntos pelo fim de todo tipo de opressão? Isso fizeram as lutas da virada do século, isso fazem os anarquistas. Uma okupa em Porto Alegre está muito mais próxima de uma okupa em Barcelona do que do sindicato dos municipários de Porto Alegre. Um coletivo musical auto gestionado, que atua no centro de Porto Alegre, está muito mais próximo de um coletivo do mesmo tipo de Barcelona do que do showmício que acontece no mesmo local que atua. A questão geográfica, a necessidade do solo, do que dá para tocar, do visível, do que parece próximo – “meu corpo, não uma linha de um corpo sem órgãos. O que é meu está próximo, posso ver e tocar, tenho poder sobre. Meu corpo, minhas regras, gosto de regrar o corpo. ” O macho diz: “homem nenhum toca a mão em mim”; a feminista também. O corpo sem órgãos não tem regras, só relações, a hibridização. O corpo como posse pessoal é o corpo exclusivista, moralista, apartado, raro, para poucos. A burguesia cultua exatamente isso: ficar apartada, estar entre poucos, pessoas raras, ditas especiais, únicas. Unicidade, raridade são características da arte burguesa. Na casa noturna a menina pequena burguesa diz isso: meu corpo é para poucos, é raro, exclusivo, artigo de luxo, caro. É uma ilusão achar que manda no seu corpo; o controle manda no corpo, impõe a ideia de corpo. Tem medo de um pênis dentro do seu corpo, mas não tem medo de ingerir o lixo das indústrias farmacêuticas e alimentícias; não está nem aí com a poluição das cidades que mata aos poucos o corpo; não acha as modas algo a ser criticado, e as modas padronizam os corpos. “Meu corpo, minhas regras”? O CSO não tem regras, apenas programas, experimentações, relações entre termos diferente, núpcias demoníacas.
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Viver é consumir e consumir é enriquecer ainda mais os ricos; ele sabe disso, mas não pensa sobre, não quer ficar estressado, só quer viver sua vidinha na boa. Ele acorda as sete horas da manhã num dia da semana. Dormiu com medicações (das marcas tais) vestido de cueca e camiseta (marcas tais) em uma cama (marca tal) no quarto do apartamento alugado – apartamento de propriedade de um engenheiro que é dono de todo o prédio. Sai da cama (comprada em um shopping), vai até a cozinha, abre a geladeira (marca tal) e pega uma garrafinha de iogurte (tal). Depois de beber o iogurte, fuma um cigarro (marca tal) na frente do PC (marca tal); ao seu lado uma janela mostra um parque da cidade – uma cidade metropolitana que está se encaminhando para se tornar modelo. As contas estão pagas: luz, internet, telefonia móvel. Está tentando faz tempo trocar de plano de internet e não consegue. Escova os dentes com a pasta de dente tal e a escova tal; toma banho se ensaboando com o sabonete tal, usa o shampoo tal e se seca com a toalha tal. Veste tênis tal, calça tal, camiseta tal e sai de casa. Pega o seu carro popular tal, que está com metade do tanque cheio de gasolina comprada num posto tal. Nas ruas muitos carros: 8 horas e 15 min. Os carros são todos novos e muitos são caros. Há um fluxo nas ciclovias – hipsters que se dizem alternativos. As pessoas que estão nas ruas vestem roupas tais, compradas em lojas tais, e todos têm smart phones. Prédios enormes estão por todos os lados, muitos são novos, frutos do empreendedorismo de grandes construtoras, que conseguiram financiamento de grandes bancos. Ele demora 45 minutos até chegar no trabalho, mas se fosse em outro horário, demoraria metade do tempo. Chega no prédio da empresa, micro, na qual trabalha. A sala é situada em um prédio de médio porte, propriedade de um único sujeito. Ele entra em seu nicho, pega seu notebook marca tal e começa a trabalhar. Os outros cinco colegas que estão na sala vivem uma vida praticamente igual a dele; há uma diferença pequena entre salários. O trabalho diário dura mais ou menos 8 horas. A empresa funciona como outras empresas: hierarquias, horários, tarefas, relações entre os funcionários... porém, as hierarquias não são duras, já que o dono tenta ser o mais amigável com seus funcionários; ele sabe que isso ajuda otimizar o trabalho. Ela, a micro empresa, foi montada a partir de uma herança recebida pelo dono. Ele, o familiar que deixou a herança, teve como objetivo de vida acumular o suficiente para ajudar os seus. O dono da empresa era funcionário público, já fazia mais de uma década, mas com o dinheiro resolveu realizar seu sonho, ser o seu próprio chefe. Quis recomeçar a vida com 40 e poucos anos. A empresa não dá muitos lucros, mas como ele tem ainda um bom dinheiro guardado, não se preocupa com isso. Na hora do almoço, os funcionários vão até um mercado próximo, que faz parte de um monopólio da região, e compram sanduiches e coca cola; eles almoçam isso em uma praça. Depois de comer, eles fumam um baseado e conversam sobre as viagens que querem fazer; sonham com Londres, curtir os pubs, tomar boas drogas. As ambições deles são: acumular grana, ter ou trocar de carro, viajar, ter dinheiro para ir em bons restaurantes e casas noturna da moda, comprar roupas de tais e tais grifes, trocar de smartphone, de note book. Todos se dizem chateados já que não dá para comprar produtos em pequenos mercados, a rede que monopoliza a cidade tem preços mais baixos. Mas comentam felizes que na rede há promoções de tais e tais produtos. Eles se sentem bem de certa forma com a vida; são jovens, o trabalho é criativo, todos são meio que parceiros. Eles voltam para o trabalho, e quando termina todos vão para um bar tomar cerveja. Como é dia de semana, escolhem um bar com cervejas baratas. O bar fica em um bairro boêmio e dá certo lucro para o proprietário. Ele vende bebidas de tais e tais marcas, mas está pensando em montar um acervo de cervejas artesanais. Os poucos pratos do bar são feitos na casa com produtos comprados nessa rede que monopoliza a região. O dono pensa se deve ou não pedir um empréstimo para um banco e assim reformular o espaço. Todos, o pessoal da microempresa, sabem que devem economizar – é a regra. Quem quer pôr dinheiro fora? Eles não são loucos. Não se interessam muito por política, votam já que são obrigados. Não veem como algo negativo fumar maconha, mas depois de velhos passaram a gostar de policiais.
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Quem comanda uma subjetividade? “Eu penso”? “Minhas ideias”? As pautas e agendas das conversas, das discussões são impostas pela mídia, e isso é o mais visível, já que a máquina abstrata, o controle, comanda tudo. Todos aceitam a linguagem, o posicionamento das mídias, isso é naturalizado.
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Os pós-modernos são pós humanos, são monstros, são estranhos para os outros e para si. As mudanças constantes impostas pela máquina os coloca em uma posição de estranhamento, não sabem quem são e muito menos o que serão. Ninguém se reconhece, tudo é estranho, até as modas são entranhas. Um reflexo disso é a tentativa de reviver identidades, a busca de identidades duras, fascistas.
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O espião, o estelionatário, o policial corrupto, os que praticam golpes, são geniais. Sabem mentir, inventar, criar ficções. Criar uma verdade é criar, ou seja, é ficção, algo diferente de encontrar uma verdade; se não é verdade então é uma mentira: viva os cientistas mentirosos! Alguns pesquisadores em campo na cidade não sabem direito quem são, não reconhecem a si mesmos... quem são? São cidadãos sofrendo com a opressão da cidade ou pesquisadores da opressão da cidade. Quando atua em um movimento social, o que é? Um ativista ou um pesquisador. Um amigo meu está aplicando um golpe. Ele está sem grana, saiu da prisão, tá na ruim. Ele pede nos semáforos dinheiro para comprar leite especial para a filha – mas é um golpe. Ele é alto, bonito, ele sabe sorrir, olhar da forma certa para quem está nos carros; quando ele mostra o cartaz pedindo leite, ele faz uma cara de esperançoso, de um pai de família em crise financeira, que é obrigado a se sujeitar – ele faz tudo isso muito bem. Mas ele não tem filha, é um golpe, e ele é bom nisso. Outro amigo meu é um pesquisador. Ele montou uma barraca de cervejas artesanais. Ele vende as cervejas, usa uma caminhonete velha, se apresenta a todos como um comerciante pequeno, de poucos recursos. Mas os recursos para montar a barraca, tirar a licença, para ficar no ponto foram pagos pelo financiamento do grupo de pesquisa dele. Ele está dando um golpe, é um cientista fazendo seu experimento. Em Barcelona me intimaram uma vez já que eu estava sempre em uma okupa e ninguém sabia quem eu era. Um dia me encararam e eu encarei eles, e tive que dizer que era um cientista. Nas festas eu minto, digo que sou artista, nenhuma gatinha de vinte e poucos anos vai estar interessada em um doutor. Os adolescentes mentem. Em pesquisas, os entrevistados mentem. Mentir envolve uma criação, é mais difícil do que dizer a verdade. É feio mentir para conseguir algo, mas mentir para ser criativo, isso é poesia. E não é tão feio assim, mentir pode ser uma questão de vida ou morte. O adolescente mente para os pais, para os policiais, para o professor. O capitalista, o político, eles mentem, mas daí a coisa é diferente; mentem para conseguir poder, mentem e muitas vezes acabam matando muitos. Pequenos golpes são louváveis, mas não os grandes golpes daqueles que querem mais e mais: carne podre, trabalho escravo, guerras...
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Eu posso dizer: eu não lhe traí, eu comi ela sim, mas você estava junto, e você gostou, mas nem sabe, não se tocou que estava junto. Mas quando a sua vagina mente, quando seus olhos mentem, quando mente que está bem a meu lado, tudo isso dói. Você nunca vai me trair, estamos juntos mesmo separados, e juntos com o mundo quando juntos. O exclusivismo: “a vagina que é minha, a boca que só me chupa, o pau que é só dela”... Desejos individuais, machismo por toda a parte – e as feministas repetem isso. Tentativa e erro, experimentação. Não há modelos, “somos” todos monstros e “a gente” tenta e erra, tenta e erra. Erra comigo, não me acerta! O feminismo por vir está aqui em algumas coisas, o machismo ainda está aqui em muita coisa, entre homens e mulheres, machos e feministas. Não há agenciamento puro, sempre há o erro, mas há aqueles agenciamentos em que os processos mostram um mundo atual especial. Eu chorei quando você me mostrou seus dons, que eram técnicas milenares, eu fui comido por você, deusa mágica, e pelos meus amigos do oriente, fui comido pelas belas meninas-meninos das okupas, fui comido, mas no meu pau, e meu pau era apenas uma linha cósmica, ou seja, não um pau, mas um canal. Estavam por perto ratos, chatos, caretas, mas “nós” todos somos chatos e caretas, “a gente” é isso, só que em boa parte do tempo “a gente” tenta ser zen-budistas em narcose; tentativa e erro. Amo errar com você. Eu te amo. E o que mais amo é isso: os momentos em que eu não sou mais eu, um corpo individuado, e você não é mais você, e “nós” não somos mais dois, somos apenas moléculas entre o céu e a terra em dança, trepada cósmica, amor transcendente que acontece no cotidiano.
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Tem coisas, muitas, que grudam nas subjetividades de tal forma que parecem naturais. Ainda falam em natureza, mesmo que o projeto da modernidade tenha sido acabar com a natureza. Nada contra a tecnologia, a técnica sempre acompanhou o homem; ela aparece e daí muda os homens, muda o mundo. A tecnologia está a serviço do Império, mas também é uma potência da multidão. A máquina vai destruir o homem? Não, o homem destrói o homem. A natureza é vista como um bem, um objeto, depois que destruíram ela. A destruição da natureza já aconteceu; mas o medo em relação da tecnologia é o que? Remorso humano... tipo quando a gente sacaneia alguém e depois sabe que vai ter volta. Mataram a natureza, matamos, e agora a tecnologia vai nos matar! Vai ter volta!
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Odeiam a todos, se juntam para lutar contra os outros, quando sozinhos lutam entre si. O ódio mantém o capitalismo; passar por cima de todos para ter mais e mais; mentir, manipular, matar para ter mais e mais e é isso: mais e mais. Quantos morrem para alguém ter um apple, um nike, compras no shopping? Que se foda a natureza; a modernidade venceu. Quem está dentro do sistema mata outros, mata formas de vida. E ninguém está fora do sistema, todos “somos” assassinos.
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sábado, 16 de setembro de 2017

Eu me desprezo

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Eu me desprezo, não me suporto, tenho vergonha de mim mesmo. Minha empregada doméstica recebe por hora mais do que um professor, e eu acho que isso é sintoma da decadência social. Como alguém baixo, de segunda classe ganha mais do que um professor? Um professor tem que ganhar mais do que um limpador de rua, mesmo que o trabalho do limpador seja muito mais duro. Trabalho intelectual tem que ser valorizado, mais, sim, do que qualquer outro. Eu sou classe média, minha família pode pagar meus estudos, mas entrei na universidade pública. Sou rico e ganho financiamento de agências do Estado, e o Estado é sustentado pelo trabalho duro dos pobres. Eu não preciso do dinheiro, mas quanto mais, melhor. Que se foda o cara que tá na rua, eu quero fazer minha vida, isso que importa. Sim, eu luto pelos pobres em meu discurso, mas só nele. Tenho pena deles, sou paternalista, quero o bem deles desde que eu continue tendo cada vez mais dinheiro. Sou um gourmet, gosto de comidas especiais em restaurantes hipsters. O que eu pago por uma refeição poderia alimentar muitos que estão nos semáforos pedindo esmolas – passei por eles agora. Eles que se fodam. Troco de carro a cada três anos já que não gosto de carros velhos. Admiro pessoas que têm carros que custam centenas de milhares, e eu queria ter um carro assim; e esse dinheiro – o custo de um carrão de playboy – poderia ajudar quantas pessoas? Tenho uma casa grande, bem equipada que abriga minha família, enquanto muitas famílias, do mesmo tamanho, vivem em tendas na rua. Se fosse estipulado que cada pessoa poderia ter apenas 30 metros quadrados para si, que um casal poderia ter quarenta metros e dez a mais para cada filho, se isso acontecesse, provavelmente, todos os brasileiros teriam moradia digna. Mas eu não quero isso, quero mais e mais, e mesmo se eu nunca tiver, quero que as coisas continuem assim, já que amo os ricos, a riqueza; gozo ao pensar na riqueza. [......] Como carne; que se fodam os animais, mas ainda acho absurdo zoofilia. Sim, como carne já que é o alimento mais caro; assim mostro para todos que tenho dinheiro. Tiro fotos em restaurantes caros, por isso.  
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Preciso de mulheres, de gays, de negros, de pobres, para que eu esteja sempre acima; sim, sou um macho, branco, classe média. Eu fui castrado, então vou castrar; quero minha posição; que continue existindo o poder de uns sobre muitos. Sou egocêntrico; e sou tão egocêntrico que nem noto isso, já que meu discurso diz o tempo todo: sou um cristão humilde. Para mim, só interessa a macro política, sou um cara sério. Faço putaria apenas na vida privada; separo o privado do público. Quem fala o que eu não entendo está louco; quem discorda de mim é fascista. Eu silencio quem me contradiz. Sou um consumista, mas me auto qualifico como um lutador pelos direitos dos que não têm renda para consumir. Digo que sou libertário, mas não sei o que significa ser libertário. Eu valorizo intelectuais, já que sou um intelectual. Eu valorizo a instituição familiar já que tenho filhos e esposa. Tenho orgulho de mim, da minha vida, dos meus. Tenho orgulho, mesmo sendo tudo isso que estou expondo aqui. Tenho orgulho dos meus amigos ricos, que se deram bem na vida. Só gosto de gente como eu. Falo como poucos para marcar minha posição; uso palavras difíceis, que poucos entendem, para mostrar que sou alguém com um capital. Acredito no trabalho, trabalho remunerado. Odeio vagabundos. É, digo que sou inteligente, mas não consigo entender que a “valorização do trabalho” é uma palavra de ordem. A sociedade opressora é sustentada por isso. Não entendo o significado de “renda de existência”, já que valorizo apenas o trabalho assalariado. Não entendo que o cú, o cú dos gays, que ele colore o mundo, o deixa mais alegre, mais interessante; os gays e seus cús produzem mundos, o mundo. Cada prega que falta no cú de um gay, cada transa de um gay, cada fist fucking que um cú recebe, tudo isso deveria ser valorizado ao ponto de ser remunerado. [.........] Para mim, é normal duzentas mil pessoas em um festival de música pop patrocinado por um monopólio, é algo comum jogos contínuos de futebol que reúnem pelos menos 50 mil pessoas e é também comum um povo, e eu junto, em casa, nas redes sociais, enquanto pouquíssimas pessoas estão nas ruas contra o tal Estado fascista, que eu sou contra – melhor: 300 pessoas, Porto Alegre, um ano de golpe, Cidade Baixa, 8 horas e 30 da noite, sem polícia e bloqueios. [.....] Gosto de abstrações e de pesquisa teórica. Sou um intelectual. Quando a rua, a vida são meus objetos de pesquisa, abstraio de tal forma que a rua não aparece no meu trabalho. Odeio a rua, amo a torre de marfim. Chamo de empiria, conhecimento raso mostrar a vida de uma forma radicalmente direta, crua. Me escondo atrás de conceitos e não sei como eles funcionam, suas materializações na vida, nas ruas. [.........]
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Eu amo o mundo, minha vida, agradeço pela vida que me foi dada. O suicida, quem quer se matar, para mim, é um fraco, um coitado, alguém doente já que ele não é como eu, "eu, o bom cidadão, saudável, com bom senso". Quem quer se matar tem que ser impedido, precisa de ajuda médica, tem que ser hospitalizado. Quando alguém corta os pulsos, ou toma uma overdose, ou o que for, a primeira coisa que é feita é chamar os caras da área de saúde para salvá-lo. Ele pode ser internado contra a própria vontade e quase sempre é obrigado a ouvir o discurso moralista dos familiares; ele é obrigado a viver em um mundo que odeia, com pessoas que odeia, aceitar as coisas como elas são. E isso é assim, a vida, e eu afirmo essa vida. Se um drogado quer se matar – já que não pode mais se drogar, e a droga é a única coisa que permite que ele continue vivendo – eu digo: você tem que continuar vivendo como eu, como o bom cidadão, tem que viver a vida e sofrer como eu sofro. Uma dupla imposição: não pode se drogar, não pode se matar; o controle na forma de leis e moralismo. E mais..... aos filhos é perguntado: você quer nascer, ser meu filho, você quer fazer parte de tal povo, quer ser de tal classe social, ser de tal raça, você quer ser humano, viver em determinada época? Se perguntar antes é impossível... então, tudo isso é imposto, sem que haja escolha. Te fode, você vai ser humano e você não tem escolha.  
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Eu minto, manipulo, faço chantagens feito uma histérica para manter minha posição. Falo mal do senso comum, mas meu saber é baseado no senso comum. Penso como todos, a diferença é que sei falar e escrever. Como a maioria não sabe fazer isso, eu afirmo o senso comum dizendo: eles não pensam. Eu acho que conheço o mundo e tento mostrar para as pessoas o mundo, já que elas não pensam o mundo. Que todos se coloquem em seus lugares; meu lugar é o trono. Eu rio de todos, todos são risíveis. Digo para todos o tempo todo: esse ano eu li 50 livros, vi 30 filmes, viajei para a Europa... eu tenho que dizer, afirmar, mostrar. E todos os meus amigos fazem o mesmo, eles são iguais a mim; então, como há tantos iguais, nem me vejo como um elitista. [.......] Eu tenho que comer, como todos, uso as redes, como todos, tenho um corpo humano, como todos, mas, sim, sempre afirmo: eu sou alguém “diferenciado”. Sou tão controlado como todos, sou passivo como todos, aceito as coisas como todos, mas é isso: me acho importante. Não consigo nem imaginar uma vida não fascista, mas digo que eu luto por uma vida não fascista. Não reconheço que sou fascista, que eu quero manter as coisas como estão. Para mim, utopia é a sociedade perfeitamente controlada, na qual todas as pessoas sejam classe média e inteligentes como eu. [...........] Quando alguém diz: o corpo tem que ser conceituado; eu digo: não, o corpo humano é o corpo do homem moderno, formado por órgãos, é isso. Ou seja, afirmo o que todo mundo pensa; e sempre digo: essa é a forma que eu penso. Quando alguém diz: não tem muita diferença entre o capitalismo e o comunismo de Estado; eu digo: mas são regimes completamente diferentes, isso é o que eu penso. Quando alguém diz: só se pensa “com outros, ou seja, a partir do comum”; eu não entendo e digo: mas eu penso, isso é algo que diz respeito a uma pessoa, uma mente pensante. Ou seja, penso como todo mundo. Confundo sempre complexidade com extensão, quantidade. Para mim, complexidade é uma questão numérica. Ou seja, penso como todo mundo. [.....] Só falo palavras de ordem e repetições e repetições do senso comum. Falo o tempo todo em acabar com a opressão, mas para mim opressão é a de um Estado fascista. Só vejo o Estado. [..........] Como bem disseram Deleuze e Guattari e Negri e Hardt: a contracultura não foi uma revolução apenas de costumes, foi política, econômica, subjetiva. Mas eu gosto de cada coisa em seu lugar, penso assim, como todos, já que é a única forma de eu conseguir entender o mundo. Ser homossexual é uma questão cultural sim, mas também política, econômica, subjetiva, e diz respeito a todos. A inclusão das minorias cria uma vida diferente. Os gays, trans, travas, lésbicas, eles estão por aí, pelas ruas e não são mais agredidos; é outro mundo: a família mudou, a escola mudou, a empresa, as ruas, as cidades... tudo mudou a partir da inclusão: afetou a subjetividade das massas, alterou a política, o posicionamento dos políticos, as leis, alterou a economia, criou novos consumidores e produtores.
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Para mim, tudo é uma questão pessoal já que só vejo a mim mesmo e secundariamente as pessoas que estão na minha roda e as outras pessoas que estão ao redor; ou seja, como todos, só vejo o visível. Sim, tudo é uma questão pessoal, quando falam mal dos brancos, da classe média, dos intelectuais, sempre digo: mas eu não sou assim, você está errado. Acho que estão falando de mim e não do mundo. Sim, eu sou o centro do mundo, e tenho sempre que me afirmar. [...................] Sim, eu fecho os olhos para não compreender que sou um fraco, submisso. Eu me acho especial, eu ensino os fracos e submissos, os defendo; mas eu não aceito ser visto como eles. Então, quando dizem: direita e esquerda estão compactuando para se manterem, já que eu dependo, voto, acredito ou na direita ou na esquerda, eu digo: é mentira. Eu vou lutar eternamente para não aceitar que sou um fraco e submisso, que sou enganado e fodido desde sempre. Eu fecho os olhos para não enxergar isso.     

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

sacações

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Quando sonho com helicópteros da polícia associo com o pai, o castrador, penso que o sonho significa que minha mulher vai saber de minhas escapadas, penso que o sonho se refere às minhas brincadeiras de infância naquela época em que a casa era meu mundo, um ambiente pequeno e hiper vigiado. O mundo é a família para mim já que todos os meus problemas, que chamo de psicológicos, pessoais, se resolvem a partir da análise da minha vida familiar, da minha infância. A criança fabula tanto já que só pode fugir da casa de papai e mamãe a partir da imaginação. O mesmo quando está na sala de aula, mas gostaria de estar em qualquer lugar menos lá e muito menos com papai e mamãe. O adolescente é aquele que mais sofre já que a outra vida está próxima, mas ainda é obrigado a morar com os pais, e então entra num jogo de forças com eles e sempre perde. Os pais chegam ao máximo de traumatizar os filhos para que eles continuem a ser um bom menino, uma boa menina; criam neuróticos, pessoas cheias de ódio reprimido exatamente como eles. Mas os helicópteros não são metáforas, não representam nada, são instrumentos concretos do controle, vigiam a todos. Não aceito isso... meus sonhos são colonizados pelo controle,  sou vigiado mesmo quando sonho. Não aceito isso já que é um enunciado paranoide para o meu bom senso. Enxergo e trato muito bem minhas neuroses, mas me nego a aceitar minha loucura, a bela loucura, a vidência, que não é obviamente a neurose. Me nego a perceber o insuportável, já que se percebesse e isso ficasse claro para os outros, eticamente, seria obrigado a ir para as ruas, lutar diretamente contra o poder de forma realmente eficaz, teria que estar junto da multidão – e a multidão não aceita os orgulhosos, esnobes, tranquilos em suas casas. A casa da multidão é a rua, a praça, a acampada, a okupa, o parque em festa. Festa, para mim, é coisa privada, eu e os meus, nos clubes cools, hipsters. Amo a segurança, os conceitos velhos e gastos me dão segurança, e que se fodam todos que não têm teto, guarda-chuvas, roupas impermeáveis.     
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Eu não entendo o mundo; o que está acontecendo com ele? Um grupo se reúne para fazer treinamento físico em um espaço público. Um grupo grande de pessoas com esse mesmo interesse; eles se reúnem uma vez por semana de noite no espaço. Os treinos envolvem alongamentos, aquecimentos, seções de corridas, pulos. Não são usados equipamentos, apenas os corpos. Tudo isso varia de semana para semana, a partir da exigência dos corpos, das pessoas ou das mudanças climáticas. Porém, o grupo necessita sempre de alguém que planeje uma aula, ou aulas; alguém que pense na necessidade dos corpos do grupo, mas o grupo não contrata um instrutor para não gastar dinheiro e por achar desnecessário. Por qual motivo desnecessário? Todo o treinamento envolve exercícios comuns, que certos membros já têm conhecimento, mesmo não sendo profissionais. A primeira aula do coletivo é então capitaneada por alguém com esse conhecimento, um jogador de futebol não profissional, alguém que fez academia por um bom tempo. Depois das primeiras aulas, os membros já têm um conhecimento consistente e podem se propor a planejar uma aula. Depois de uns meses qualquer um que se interessou pelo treinamento, o fez durante um tempo, pode planejar uma aula, qualquer um que esteja a fim. Esse alguém que planeja nesse coletivo nunca é um líder, um professor, alguém que centraliza o coletivo; é só alguém com tempo e disposição. E muitos do coletivo se negam a isso, a ser o planejador do dia, da semana ou do mês. Ou seja, não há liderança, e se o planejador se vê ou é visto como líder isso é derivado de uma ilusão, já que no caso, planejar, é indesejado por muitos. Isso é um exemplo, uma atualização, uma experimentação do anarquismo. Ele é experimentado, sempre foi, desde muito. Eu não entendo isso, por qual razão eles fazem isso; não me interessam as dinâmicas dentro da sociedade que tentam burlar as hierarquias; a auto-organização de coletivos, para mim, são como festas, fugas do dia de trabalho, da vida dura que tanto amo, do tempo controlado, da vida controlada. Para mim, eles estão brincando. O que importa, para mim, é o Estado sempre. Só penso em coisas grandes, sou um pensador das coisas grandes, sim, sempre afirmo isso. Não vou perder tempo com essa gente. Isso que eu penso quando vejo que as pessoas das okupas se preocupam com relações diferentes com o corpo, com o lúdico, com o tempo, com a alimentação. Odeio eles já que só querem uma vida suportável. Odeio quem acha minha vida insuportável. Eles só querem festa, e eu quero eles controlados para não abalarem a segurança da minha vida. Odeio quem vive de forma diferente, melhor, odeio quem vive, já que os que tomam o espaço público sabem viver e eu estou morto desde sempre.
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A infância, para mim, é a melhor fase da vida; mas as crianças são fascistas a partir do momento que se apropriam dos signos adultos, ou são apropriadas por eles. Antes disso, são consideradas primitivos. A criança aprende a odiar o controle dos pais, da cidade, do que for. O ódio cresce e vira monstruoso, mas todos dizem: você é feliz, tem que ser feliz, você é criança. Daí se derem para a criança uma arma, ela mata um judeu – os nazistas faziam isso. Faça o teste: dê uma pedra para uma criança e diga que ela pode jogar em alguém pertencente a uma minoria; ela vai jogar com prazer. As crianças odeiam, são neuróticas, e expressam isso muito bem; mas o senso comum diz que elas estão brincando, se divertindo
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Eu tava na sétima série numa cidade do interior. Meus colegas eram uns chatos, e os caras mais velhos não deixavam eu andar muito com eles, já que era mais novo. Daí aparece um novo aluno, que tinha vindo de Porto Alegre. A gente começa a andar juntos e se conhece bem. Ele era muito inteligente e ligado, parecido comigo. Ele tinha um irmão mais velho que curtia cultura pop, como eu. Nós dois, a gente já lia as boas revistas nacionais de rock, como a Bizz, lia os quadrinhos do Chiclete com Bananas; mas eu era um pouco mais infantil, já que ele tinha vindo da capital. Um dia, em aula, a professora de matemática tava meio puta já que a gente não parava de falar, de se socar, de rir alto. Ela vem até a gente no fundo da sala e olha as nossas classes; a gente tinha escrito “Coléra” nos tampos da mesa, a banda punk que tava ouvindo direto. Foi legal, ela olhou e falou meio maravilhada: Coléra? A gente matava aula e ia pra minha casa de manhã; não tinha ninguém, então não dava nada. A gente ficava curtindo o quarto do meu irmão, sua coleção de trezentos discos. Quando não dava pra ir pra casa, pros velhos não saberem que a gente tava matando aula, a gente curtia o centro da cidade. Um dia de manhã, a gente tava numa loja de discos vendo as capas e acha um do Pil. A gente diz: bahh, Pil, que massa! A gente não tinha ouvido ainda, mas já tinha lido algo sobre, e pediu pra ouvir. É difícil descrever essa sensação que me pegou durante toda a adolescência: descobrir uma nova banda, um novo estilo. E curtir rock não é só ouvir um som, mas ler sobre, ver filmes sobre, ir em shows, andar com certas pessoas, ter uma fascinação pela estética das bandas, se vestir como eles. Se eu levei bomba na sétima série já que não suportava ficar em sala de aula.... bem, na mesma época, nessa época que comecei a andar com o mano, eu li toda a coleção da Bizz do meu irmão, conheci inúmeras bandas, vi inúmeros filmes. Na Bizz tinha uma seção que era sobre a história, a biografia de bandas; era uma seção longa, com muito texto; de início, fiquei meio amedrontado com tanta informação, mas fui lendo aos poucos. Depois de um tempo, as edições que eu gostava, as reportagens que mais gostava – como a revista era mensal – eu lia inúmeras vezes durante o mês. Li a história dos Doors, Joy Division, Pink Floyd, Pistols, histórias regadas de drogas, sexo, suicídio, loucura; e a partir daí comecei a ficar mais que interessado nesse tipo de vida. Nesse tempo, achei numa locadora o filme sobre o Sid Vicious, Sid e Nancy. Assisti e achei ruim, achei poser, espetacularizado; claro que não defini o filme dessa forma com 12 anos, mas achei que muitas cenas eram forçadas, tipo: nos shows, no filme, Sid mal ficava no palco, não tocava o baixo, ficava brigando com a plateia. Quando vi isso pensei: não é assim um show, o cara que fez o filme não sabe nada de shows de rock. Demorei uns anos pra conseguir entender que era realmente assim um show com Sid no baixo. Outra cena que achei forçada: a primeira vez que Sid toma heroína é tipo um inferno, com todo mundo mal, vomitando. Pensei com minha sabedoria de 12 anos: nenhuma droga deixa alguém assim tão mal, que merda de filme; e depois de uns anos, entendi que a cena era bem realista. Os anos passaram e fui acumulando repetições de séries, mas, ao mesmo tempo, meu quarto começou a ficar pequeno com a quantidade de revistas que comprava. Além disso, depois de ter lido a biografia de todas a bandas da história do rock publicadas pela Bizz e em outras revistas, foi um passo pra virar um aficionado em literatura romântica, marginal. Tava fazendo supletivo com 15 anos, a gente matava aula direto, pra fumar maconha. Eu fumava e ficava na praça com o pessoal, ou fumava e ia pro fliper, ou fumava e descia até a esquina que tinha o melhor sebo de livros da cidade. Nessa época, li todos os livros do Bukowski e da geração Beat que encontrei; li toda a coleção Rebeldes e Malditos lançada por uma editora gaúcha. Mas o que importa disso tudo, obviamente, não é a história de um menino que lia e virou escritor... isso é um exemplo de uma linha de fuga precoce, típica daqueles que odeiam sala de aula, matéria escolar, mas tem um grande interesse pelo campo do saber, da arte, da cultura. O pessoal que tava em sala de aula tirando notas boas, na sétima, oitava série teriam maturidade pra ler, se interessar pela tradição romântica? Teriam maturidade pra criar uma vida centrada na luta contra a estrutura disciplinar, as hierarquias, os pais, os professores, os policiais, as leis, as regras, o controle? Durante minha vida, sempre tive contato com caras extremamente inteligentes, com posições políticas, existenciais louváveis, que não conseguiram nem terminar o primeiro grau. Os punks do centro de Porto Alegre nos 90 eram uns deles. Pobres, morando na rua, com vinte e poucos anos, apresentando erros enormes de norma culta na fala, mas que podiam conversar sobre comunismo e anarquismo. Também conheci muitos hippies, jovens, que vendiam artesanato, pobres, sem primeiro grau, que tinham um conhecimento enorme sobre culturas alternativas. E eles – os punks, os hippies, os jovens – podem não ter condições pra produzir obra, então produzem formas de vidas libertárias. Essa é a prática anarquista. Anarquismo não é só teoria, é prática como questão existencial, e essa prática talvez seja mais importante do que a produção consistente no campo do saber. O anarquismo que não se pratica, não é anarquismo; o anarquismo não aceita a dicotomia: vida e obra. Pra conhecer o anarquismo é mais importante estar com as pessoas, os coletivos do que ler. 

sábado, 2 de setembro de 2017

duas crônicas


Eu não aceito que me vejam como um fraco, um pobre, um gay, uma mulher, um perdedor, vou lutar para que me vejam como alguém bem-sucedido. Sou um pudico, um boca limpa, só uso belas palavras. Todos cagam, mijam, espirram, vomitam, transam, suam... corrimento sai da vagina, porra do pau, onda vermelha. Idiotas inspecionam as fezes. Sangue do nariz cheirado. O banheiro fede a merda, a mijo. A toalha usada tem o cheiro meu e dela. Mas escondo isso já que tenho vergonha do corpo, do meu corpo, do dela, de todos. Eu nunca menciono isso, não há merda em meu trabalho intelectual, já que intelectuais não tem cú. [......] Ela gosta do doce do pênis, ele gosta do doce do cú, eles e elas gostam do salgado da vagina. Ele beija ela depois de a chupar e nunca limpa a boca. Ela chupa o pau dele e ele beija ela. Ela chupa o pau do amante e depois beija ele, e ele faz algo parecido. Ele chupa a vagina do seu amor menstruada. Nós cultuamos urina, merda e sangue. Fumantes queimam a pele, e pele queimada tem o seu cheiro. Depois do corte rola a cicatrização, purulenta; e o pus é tão doce. Quando criança ele cagava, colocava os dedos nas fezes e pintava as paredes; virou um grande artista. Quem fuma conhece e muito bem o catarro, quem tem asma também. O catarro às vezes mais perolado como porra, às vezes mais amarelado, purulento, às vezes com sangue. Ele gosta de lamber a pele dela de noite, mesmo que ela só tenha tomado banho de manhã; gosta do gosto da axila meio depilada e daquele cheiro forte de gente no verão. Tava todo mundo no fumódromo, ou na fila do banheiro se beijando, se agarrando – sem penetração já que no caso era algo secundário – muitos já tinham vomitado, todos estavam com a boca seca dos crivos e da biras, muitos tinham herpes e hpv e nem sabiam; mas e daí? Anjos não são assexuados, anjos trepam em qualquer lugar, chupam o que aparecer na frente, só não chupam os próprios dedos. Beijar uma boca que acabou de vomitar é amor. [...] E tudo isso é feito por gente que sabe muito bem o quanto o corpo é podre e, por isso, delicioso. Essa gente não tem nojo de si, do seu corpo. Mas se essas relações com o corpo forem expressas na mesa de jantar, ou em sala de aula, ou na reunião da empresa, se forem faladas para a esposa, ou para as amigas delas, ou ao pai e a mãe, para as pessoas sérias de forma aberta, melhor, radicalmente aberta... quem fizer isso vai ser visto de qual forma? A assepsia da ciência; a ciência como um espaço para pessoas sérias falarem sobre coisas sérias; e o corpo que pulsa o tempo todo, caga e mija, sempre... isso deve ficar de lado.  [...] Burroughs é o corpo na literatura, principalmente as moléculas do corpo. Kerouac era um corpo em movimento na estrada, mesmo que em Big Sur as moléculas fossem expostas a partir do delirium tremens. [....] O louco queria que os banheiros de apartamentos tivessem uma sacada, grande. Daí ele acordaria de manhã e daria uma boa cagada curtindo a vista, as ruas, as pessoas, a cidade. Uma relação anal com a cidade. [....] “Coprolalia” é um termo interessante, se refere às expressões obscenas, mas que são usadas em poucos espaços, nas ruas, em ambientes de ócio. Quem tem Tourette sabe bem o que fala e faz: cospe, pula, xinga não está nem aí e que se foda. Ele fala a verdade, reconhece uma puta que esconde que é puta, ele a vê e diz, berra: sua puta! Quando tem alguém escroto, ele cospe nele, e sabe o que faz. Ele assusta já que mostra a verdade que ninguém quer ver. Sabedoria de quem tem Tourette, sabedoria dos loucos. [....] Os punks não são menininhas, curtem o corpo: o vocal do The Clash pegou hepatite já que cuspiram dentro da boca dele em um show; a famosa cusparada no show punk. Sid Vicious pegava água de latrina para se picar. Lou Reed queria que cagassem na cara dele. A banda xinga a plateia e a plateia xinga a banda, todos no show se cospem, se batem: o punk tem Tourette. Os Titãs sempre foram meio punks, eles não tinham medo de falar a verdade: “amor, eu quero te ver cagar”. [....] A sabedoria das pregas do cú. Quem dá o cú não fala sobre o cú ou dar o cú. O cara dá o cú, mas escreve sobre florzinhas e amor. Não fala, exatamente, do que conhece já que sabe que vai ser bloqueado nas redes sociais, não vai conseguir emprego em um jornal, vai se queimar em sala de aula... e se falar sobre dar o cú em uma revista acadêmica, vai ter que modular o tom, de tal forma, que o texto não tenha mais o cheiro doce de cú.
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O louco é tão louco que tem cinco sentidos, mais o sexto. Só que o sexto não é um sentido a mais, mas a relação entre todos os sentidos. [....] Ele sente um orgasmo especial quando transa, orgasmo no peito, no coração, no pulmão; sim, o coração quase explode junto do orgasmo genital, ou antes dele; antes ou junto, tanto faz, tão bom quanto. [....] O morto está morto, como disse Gullar, mas o louco está vivo, e o louco está louco. O louco não come uma vagina, ele é comido por ela. O louco vê ela sorrindo, mas sabe que ela está triste. O louco sabe que “um doze” pode ser “um vinte um”, e vinte às vezes está bom, é uma boa mesa no jogo de poker. [...........] A transa de um casal diz respeito aos dois, mas não apenas, diz respeito a muita coisa, muitas pessoas. Duas legiões que se encontram, não para entrar numa batalha, mas para produzirem algo em comum. Ás vezes funciona, às vezes não, e quando funciona... são as singularidades das duas legiões agindo em comum: um sentindo o outro na performance que não é teatro; sem nóias, chatices e frescuras. [....] Quando eles acordam – aquele casal que vira a noite – e tem umas seis camisinhas usadas no chão, bem usadas, eles dizem, sem vaidades, um pouco surpresos: a noite foi boa com a gente.... e, vamos transar antes do almoço? [....] O hipster entende as hipsters. Os casais hipsters são a união de dois indiferenciados. O hipster faz bem o papel de mulherzinha, de amigo, de carinhoso, ele sabe chupar como uma mulher. O hipster, para ser um, teve que se tornar isso: a melhor amiga da sua mulher na cama. O nerd, se ainda existem nerds – já que os hipsters são a evolução dos nerds –, o nerd é o gatinho na cama, reprimido, guiado pela mulher. Já o grosso, o rude, se sente mal na cama, sente vergonha e goza rápido, já que estar junto de alguém de uma forma íntima é quase impossível para ele. [....] 

sábado, 5 de agosto de 2017

Esboço sobre transversalidade; mapeamento inicial do conceito de "sujeira"


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Perceber a transversalidade é criar um mapa, uma cartografia, dos elementos heterogêneos que agem em comum, como os inúmeros campos do saber e suportes diferenciados de arte agenciando com a política dos movimentos em rede. Tenho como uma das hipóteses, que esses campos têm em comum a impureza, que é uma das características da transversalidade. São impuros já que não têm barreiras definidas, agenciam entre si e com outros campos. Obviamente essa é uma das formas de pensá-los, já que os mesmos podem se apresentar como campos puros, definidos, bem organizados, ou mesmo, pode haver o desejo de que eles se purifiquem.
O apagamento da ideia de autor pode ser um tipo de transversalidade, quando não há centralismos de um sujeito pensante, mas os discursos de inúmeros sujeitos e coletivos. Estilos diferenciados de escrita em uma mesma obra é um tipo de transversalidade. O corpo queer é um corpo transversal, uma soma de sexos e gêneros. Porém, o mapa, a cartografia, também pensa os centralismos e suas linhas de fuga, a linha transversal entre as dicotomias, ou seja, poder e potência.  O devir é a minorização de um termo maior – como o que acontece quando teorias de campos consolidados tratam da comunicação, um devir comunicacional desses campos; “nesse caso” o devir e a transversalidade entram em uma área de indiscernibilidade, são conceitos com suas especificidades, mas, portanto, irmanados. O conceito de monstruosidade se refere à transformação de corpos modernos, tradicionais – família, cidade, corpo humano, etc – e pode ser usado para pensar as conjunções de campos de saber. A transversalidade é monstruosa, pode ser, o devir é, o mapa busca a monstruosidade. O conceito de sujeira, impureza, que é uma crítica à assepsia, não é a monstruosidade, mas uma linha dela. 
Esses conceitos se conectam e podem se embaralhar de tal forma que não haja distinção aparente entre eles; o mapa vai sendo montado, ele pode mudar de forma, de elementos, está em devir. Aquilo que se percebia como potência, linha de fuga, pode se mostrar de forma diferente. O mapa é complicado, às vezes funciona, às vezes não; pode funcionar por uma tarde, uma estação; é uma experimentação aberta ao erro, à sujeira, ele é impuro.  
Há um tipo de percepção, que creio ser fundamental para pensar a transversalidade: a percepção molecular. Esta ajuda a perceber aquilo que é impensável para o senso comum, possibilita sair das simplificações do mundo, como dicotomias, dualismos, modelos – além das dicotomias, entre elas, acontece muita coisa. Essa percepção é o que permite a cartografia, faz parte da cartografia. A cartografia pode ser chamada de crítica também, a crítica radical, de Deleuze e de Negri. Cartografia, porém, não é método, é uma forma de existência que afirma o vitalismo, diz respeito a alianças, a um grau de loucura desejada, a cartografia é a experimentação de fluxos não normatizados.
Para Deleuze, o corpo, os gêneros, a sexualidade, a língua, a comunicação, os cidadãos sedentários e suas cidades, a base da psicanálise, a arborescência, a busca da raiz, a sanidade, os segmentos duros como casa, escola, empresa, são instrumentos de controle. Então ele cria conceitos que são linhas de fuga em relação a tudo isso. Negri faz algo parecido, mostra que a ideia de Estado nação, de povo, a noção de união, a política dominante, as barreiras geográficas, são imposições do poder – o Império – para impedir uma real democracia global; e contra o Império está a Multidão, um de seus principais conceitos, talvez o que tenha sido mais apropriado nos últimos anos.  
  Como disse, a crítica deve ser radical, deve-se mapear as construções do poder, do controle, e suas linhas de fuga. A sujeira é um conceito anti identitário, contra o controle, fora de controle. O controle, conceito que trabalho desde o doutorado, é a circunscrição, a limpeza, a higienização, é a criação de um mundo simples que nega o devir. Os discursos da área da saúde e do urbanismo ganham destaque na pós-modernidade na busca de cidades e corpos higienizados. Um dos discursos contra os okupas é sobre a insalubridade dos seus espaços, já que estes podem não ter acesso a certos serviços como recolhimento de lixo. Também, as pessoas que fazem parte das okupas têm um visual estranho, sujo: cabelos compridos, mulheres que não se depilam, visual punk, neo hippie.
Há uma assepsia acadêmica, não é qualquer um que entra em uma universidade. O texto acadêmico é isso: pouca coisa é permitida. Porém, cheguei à conclusão de que certos processos são expostos de forma mais eficaz, interessante, especial, a partir da arte; muitas vezes as ciências congelam os processos de tal forma, que eles perdem sua potência. E o mapa é exatamente uma linha de fuga da fotografia dos processos.  
O ensaio, a crônica, são gêneros menores, pouco delimitados, sem definições precisas, são inclusivos, muito mais que o texto acadêmico. Uma linguagem inexata expõe muito mais o descontrole, certas linhas de fuga na cidade do que um estudo de caso. Não vejo problema em se produzir ciência como se produz ficção, já que é uma ficção, se torna ficção quando despida do fetiche de se atingir as verdades. Ou seja, a sujeira, a impureza, a transversalidade são as misturas, as hibridizações, os agenciamentos, as relações de inclusão entre termos diferentes contra a exclusão, a união a partir de identidades.
O que entra, quem entra, o papel de cada um, sempre a partir de lógicas hierárquicas, atravessam dispositivos, como a cidade, mas essa mesma cidade é atravessada por linhas de fuga. As okupas não são casas de casais, não são escolas, não são empresas, mas há pessoas que vivem nelas, produzem saber nelas, produzem nelas outras alianças entre pessoas, outras formas de vida.
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Após o contato direto com os movimentos em rede e a leitura constante da filosofia da diferença são criados outros valores, outras formas de vida, de existências, mesmo a percepção e a afecção se modificam – isso é um exemplo de dessubjetivação; portanto, há uma questão existencial na pesquisa. A academia forma pesquisadores, mas certas pesquisas, principalmente as críticas, permitem linhas de fuga dos padrões dominantes. Essas linhas de fuga quando atingem o pesquisador criam uma radical dessubjetivação.
Mas aconteceram mudanças que atingiram a multidão global, sua subjetividade, nos últimos anos (e obviamente me atingiram). A partir das lutas de 2011 – dos indignados espanhóis e do Occupy Wall Street – ficou radicalmente fácil produzir em redes descentradas e o processo assembleário se tornou unânime. As redes de assembleias, que funcionam e muito bem, apresentam uma opção para a hierarquia política. Muitos mudaram, os movimentos, pessoas, teóricos, e eu estava no meio disso tudo; e mesmo assim, o discurso dominante parece negar essas mudanças já que dá valor apenas para a macro política. A cartografia, o pensamento sobre a transversalidade, é essencial para perceber que já não somos mais os mesmos.
Jovens de 15 anos nas ocupas-escolas têm uma compreensão fina de redes; facilmente os okupas – também jovens – produzem sem hierarquias; o punk – alguém presente em okupas, mas que muitas vezes se nega a fazer parte de qualquer tipo de organização, mesmo que seja auto-organização – é radicalmente contra toda forma de opressão. Estes conhecem e praticam uma outra vida, impensável para a subjetividade dominante. Ou seja, eu como pesquisador aprendo com eles essas relações diferenciais, e isso afeta minha existência. Perceber isso é cartografia; isso também é a transversalidade, quando meu papel fica borrado, quando saio da minha posição de doutor, quando ela significa pouco, já que estou com eles para aprender e viver, aprender a viver.   
Fugir de transcendências, hierarquizações é uma questão política, ética, estética, existencial. Traçar linhas de fuga é construir mapas. Não há problema em errar, sempre se erra; a assepsia vê o erro como algo negativo, mas o erro é o meio, estar no meio, experimentando. Resolver um problema é chegar a um fim, mas importa o meio, os problemas. Okupam um espaço e depois são desalojados, mas depois okupam um novo; uma okupa não busca uma finalidade, é um meio para se estar. Uma manifestação busca um fim, mas há os processos, as experimentações.
No momento que se nota que a crônica ajuda e muito na produção pelo seu estilo, isso não é uma questão estética, mas sim ética. A arte permite coisas impossíveis para a escrita, pesquisa científica; já falei isso e insisto que deve ser mapeado. Uma tese é uma tese, um poema é um poema; cada um tem uma potência própria. E criar dicotomias do tipo: arte ou ciência, realidade ou ficção é criar ilusões. Há artes, formas de arte, e há teses, tipo de teses. Teses podem se aproximar de tipos de artes mais do que outros tipos de arte. Artes ainda se aproximam da racionalidade moderna, outras já na modernidade anunciavam a pós modernidade.  
Não aceitar as coisas como elas são, buscar a diferença, isso é também cartografia. E não estou dizendo de forma alguma: façamos a transversalidade. Apresento essas linhas atuais na pós-modernidade; o que eu faço é ver valor e expor isso textualmente, o que já é feito por teóricos e movimentos. Negri não fazia a proposta de que a multidão fosse formada, apenas atualizava em seu trabalho a produção da multidão.  
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Deleuze e Negri não são autores bem vistos pelo campo do saber. São poucos que se afetam com suas obras ao ponto de quererem estudar seus conceitos. Primeiro talvez por certo romantismo que atravessa suas obras, como perceber a pobreza como uma potência e a riqueza como algo negativo, já que os países ricos sustentam falsas democracias.
Eu já fui chamado de romântico por esse mesmo tipo de posicionamento. Para mim, as lutas dos movimentos em rede são um valor em si mesmas, como muitos afirmam. Se o Brasil entrou em uma crise política, que anuncia um novo fascismo, após as lutas de 2013 – e algo parecido aconteceu na Espanha a partir das lutas de 2011 – ao mesmo tempo, os coletivos em rede se fortaleceram. Ocupas foram criadas em escolas e universidades no Brasil; jovens, mesmo com 15 anos, reproduziram a forma da rede, a transversalidade, para se organizar, ou seja, isso ficou comum, é um comum entre os coletivos.
Deleuze apresentava uma descrença em relação ao futuro da revolução, se interessava, sim, pelo devir revolucionário das pessoas; ou seja: as formas de resistência frente às imposições do controle, o devir. Em relação à comunicação, ele pensava que ela estava podre, daí a necessidade do silêncio. Deleuze nunca disse que o Estado era necessário e também nunca afirmou o contrário. Já Negri, um autor que viveu as lutas dos movimentos por outra globalização na virada do século, que se interessou pela nova esquerda na América Latina, tem um posicionamento mais romântico. Para ele, a revolução é possível, a comunicação pode ser contra comunicação, e o poder – o Império, sua forma social, o controle – está sendo posto em jogo pelos movimentos de multidão. Essa tríade talvez seja a que mais acompanha meu trabalho: comunicação (como disciplina, como senso comum, como contra comunicação ou seja crítica), poder (o controle) e resistência (movimentos em rede, de multidão); essa tríade é a transversalidade, uma conjugação de campos; e a transversalidade já é uma forma de resistência, contra controle, que diz respeito ao campo da comunicação e aos movimentos. 
Na virada do século, com os movimentos globais em rede, fortemente dependentes das novas tecnologias de comunicação e informação, um novo paradigma de lutas tomou força, permitindo, então, uma visão mais romântica do futuro, como a de Negri. Porém, o trabalho negriano é fortemente dependente do trabalho de Deleuze, o que ele fez e bem foi atualizar o trabalho de Deleuze considerando as formas atuais do poder e das resistências.
Mas as considerações de Deleuze sobre a necessidade de silêncio, a podridão da comunicação  podem ser utilizadas para pensar certos processos sociais, que não dizem respeito aos movimentos. A comunicação podre de Deleuze e a contra comunicação de Negri são duas linhas atuais de uma sociedade da informação: a comunicação como controle e a comunicação como contra o controle. Para a epistemologia da comunicação essa é uma questão chave, define a comunicação como um agenciamento formado por duas linhas de naturezas diferentes, não dicotômicas.
Deleuze e Negri ajudam a pensar outra questão epistemológica central, no meu trabalho, a autoria. Deleuze diz que não há sujeito de um livro, e sim uma multiplicidade que o produz. Negri utiliza o conceito de legião para pensar essa multiplicidade, sempre está envolvido um coletivo, mesmo na escrita. Em relação aos campos da arte, saber e da política, pensados como linhas de um agenciamento, isso diz respeito ao paradigma rizomático de Deleuze: sistema a-centrado composto por elementos heterogêneos. A multidão é um rizoma, a comunicação faz parte do rizoma, um livro pode e deve ser um rizoma como o que eu proponho. Para Deleuze não basta dizer “viva o múltiplo”, mas sim ele deve ser produzido. Isso para mim não é uma palavra de ordem, a natureza dos objetos de minhas pesquisas exige isso, produzir uma multiplicidade, a transversalidade. Os movimentos em rede, a cidade, a comunicação, exigem a conjugação de uma multiplicidade de campos, fazer rizoma. Isso é necessário para evitar a reprodução, a fotografia, o congelamento de processos que estão em devir, acontecendo. Importante é pensar “com”, perceber o comum, fazer parte desse comum, ser a linha de uma multiplicidade, fazer a transversalidade.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

manifesto pelo estupro corretivo de machos


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Os antidepressivos talvez sejam uma forma de controle, criar uma manada feliz; é, os trabalhadores 10 horas por dia na empresa, sorrindo, felizes, a utopia do capitalista. O álcool devia ser o antidepressivo da época em que a fábrica era o centro da produção. Trabalhavam tantas horas e depois iam pra casa e bebiam, o público e o privado separados. Agora, como não há mais separação, dão antidepressivos pra todo mundo ficar felizinho o dia todo, mesmo se fodendo. E o mapa está pra ser montado, as linhas traçadas. A hipocondria pode ser uma neurose presenteada pela área da saúde, uma forma de controle, como pode ser um devir. Como devir, na hipocondria, pela percepção molecular, dá pra viver uma relação com o corpo especial; dá pra ter afecções e percepções que dizem respeito à doença. O hipocondríaco delira, se sente como estivesse sofrendo das piores doenças possíveis. Ele não tem a enfermidade, mas se sente mal como se tivesse. E não falo nos sintomas manifestos, mas na afecção que acompanha quem está doente. Quando ele delira que tem aids, ele não manifesta os sintomas da doença (mesmo que as vezes manifeste), mas se sente mal por pensar que a tem. Isso é importante, sentir algo impossível pra si, só possível no delírio. Algo parecido com os sonhos, melhor ainda, os pesadelos. Ele sonhava que ia ser enviado pra prisão. Ele sabia no sonho muito bem o que o esperava: ia virar a menina da turma no presidio e não tinha o que fazer. Toda essa situação, no sonho, lhe impunha um afeto muito forte, muito real, cruel. Ele nunca foi nem vai ser preso em vigília, mas a partir do sonho... o sonho lhe permite entender como um preso se sente. Não é essa a importância da arte? Ter percepções e afecções impossíveis pra certas subjetividades, formas de vida. A arte ajuda a conhecer o mundo, também das afecções. O delírio da droga, sua importância, é exatamente essa.
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Sim, há formas de vida, vitalismos, formas especiais de vida por toda a parte, mas mesmo assim.... todos se sujeitam o tempo todo pra manter um mínimo de dignidade, têm que aceitar muita coisa pra continuar vivendo: trânsito opressor, trabalhos mal remunerados, dinheiro vindo de pessoas asquerosas, lutar por certos direitos contra pessoas asquerosas como político, cumprir com os deveres, acreditar em direitos. Mesmo coisas que parecem banais podem ser frutos do controle: escovar os dentes, limpar a bunda, ter uma conta em banco, receber ligações estranhas, dizer: “bom dia”, “olá”, “parabéns pra você”, “eu pago mês que vem”, alugar um apartamento, comprar um carro, ganhar uma bolsa, comprar um seguro de saúde, ir no supermercado, cumprir horários, mentir que está sendo fiel, ficar paranoico ao subir o morro, filas, filas e filas, comer bem, foder bem.
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É interessante que esse é exatamente o discurso que sempre ouvi dos punks, os punks nas revistas, nos documentários, nos shows, os punks nas ruas, meus parceiros. João Gordo se tornou o maior punk do Brasil já que era o punk mais letrado, ele terminou parte do segundo grau. E esses punks da rua, com 20 anos e só quinta série, meus amigos, eles sempre falavam isso; diziam: é cara, a gente tá dentro do sistema, a gente arruma grana... é, a gente às vezes tem grana, e vai no super, naquele grande ali na Rua Riachuelo, e a gente escolhe uma massa e entra na fila; é, não tem como estar fora do sistema. É interessante que depois de ter terminado o doutorado, de ter escritos muitos livros, de ter um conhecimento de certa forma bom de alguns caras difíceis de ler, depois disso tudo.... Bem, tudo isso me fez entender a importância do posicionamento punk, me fez entender os punks, me aproximar deles. Eles dizem: você está completamente fodido por dentro e por fora; não há muita diferença entre ser currado e pagar a conta num restaurante. Você luta... não, você não luta, você mendiga, chafurda o tempo todo pra conseguir quase nada. Um pouco melhor, um pouco mais de dinheiro, de direitos, sonha com outra vida, mas é a mesma vida, não consegue pensar em uma vida realmente diferente. O Punk desletrado entende a vida, entende a outra vida, a enxerga como poucos.
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Sim, você sacraliza o cú, que não difere muito da boca, do dedão do pé, é só parte do corpo. Ser currado por trás não é nada, e pode e deve ser gostoso. Se a tua mãe dá o cú, se a tua mulher dá o cú, se a tua amante dá o cú, se a tua filha dá o cú.... o que tem de feio em dar o cú? Melhor um pau, um dedo, um braço no cú – um pau limpo, um dedo limpo, um braço limpo – do que um pedaço enorme de merda. Você não chupa dedos? Você não mete a mão no pau e depois passa no rosto? Não limpa a testa com o braço? Mas você não faz isso com merda; não vê problema em sair merda do cú e acha o fim do mundo um pau no cú. Você não dá o cú, já que acha que dói e é imoral, mas aceita numa boa entrar numa fila no banco, abrir uma conta no banco, pagar contas, se foder todo o mês, odiar a sua vida e só conseguir se sentir bem com uma garrafa de uísque, sabendo que vai se foder no outro dia com a ressaca, que é só moral.  Ah, você não dá o cú, já que vão te chamar de viado; vão rir de você. Só que a tua esposa ri de você, os teus filhos, os teus amigos, o cara que te atende no bar, todos riem de você e você ri deles; todos são uma piada pra você e você sabe que é uma piada pra todos. Você não dá o cú pra não se sentir humilhado, pra não se sentir menos homem, pra não sentir vergonha. Mas o que o Punk diz? Você não é homem na relação com o patrão e os que estão acima de você no trabalho, você é um escravo; você abaixa a cabeça facilmente pra manter o emprego, e tudo isso não é diferente de ficar de quatro. Você se submete ao gerente do banco, ao policial, aos políticos que vota, você é sim um submisso, um fraco, você é a ralé; a única diferença é que você tem um carro e uma casa, ou seja, você é um submisso, alguém da ralé, mas com adereços. Você tem um pouquinho a mais, e esse pouquinho a mais faz você pensar que não está levando no cú; só que isso é ilusão: “caminhe na faixa” não é diferente de “se ajoelhe no altar”, que não é diferente de “se sente na mesa de jantar” ou “se sente como uma pedra por mais de oito horas por dia na mesa de trabalho”, e tudo isso não é diferente de: “se abaixe que vou te currar”. Só que tem gente que dá o cu com prazer; parabéns a eles, são dos meus; mas ninguém se submete no trabalho a vida toda sentindo isso como algo prazeroso.   
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Deveria rolar estupros corretivos de machos, por gays, mulheres e lésbicas. Melhor, sem violência, eles deveriam ser fodidos por trás como um gesto de amor, com carinho, de uma forma que eles gostem. O machismo em parte seria abalado; e mais, o território da sexualidade, dos prazeres seria aumentado, o cú estaria em jogo. Preto só se fode, mulher se fode, gays se fodem, todos se fodem só por serem quem são; e não é metáfora, é ser fodido sim, dá no mesmo; e é pior já que são fodidos por serem minorias. Na cadeia você leva no cú uma vez por noite, digamos, depois de um tempo lá dentro; um preto sofre 24 horas por dia a vida toda, suas moléculas são fodidas sempre, desde o nascimento. Um homem fode a esposa, os filhos, quem está abaixo na hierarquia social, por trás com dor, mas diz que é um gesto de amor. 
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O primeiro gesto paterno e materno – e não importa qual pai for, qual mãe for, enquanto existirem pais esse gesto se mantém – é obrigar alguém a nascer, em determinada família, com seus valores, em determinado país, neste mundo, ainda mais como ser humano. Não vejo motivo de alguém ficar feliz por ser humano. A luta pela vida, o amor pela vida, como conceitos do senso comum, são palavras de ordem. Claro que amor e vida são conceitos reinventados por muitos coletivos, artistas, teóricos, por muita gente comum em banheiros públicos de casas noturnas. “Eu queria ter apenas um buraco, e não uma boca e um cú”, disse o pai dos Punks, Bill Burroughs. Mas o corpo humano é essa coisa organizada, estratificada, e isso vão te dizer a vida toda, que o corpo é isso o que todo mundo vê, o bom senso. O corpo é reinventado, em bares, ruas, okupas, na arte, na teoria. Há uma luta contínua pra produzir diferença, a linha de fuga não é fácil de ser traçada, e mesmo traçada, pode falhar. Mas e aqueles que não querem lutar, mas não querem também se submeter, os que nem queriam ter nascido?
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Dar o cú é um afeto, uma sensação; o problema é quando dar o cú se torna uma questão moral, que atinge os machos, os machistas. Pra eles dar o cú é se submeter a um homem, é se tornar uma mulher. Sim, “como eu sendo um homem permitirei que me vejam como um ser baixo, vil, fraco, de segunda categoria, como uma mulher? ” Dar o cú não mata, não põe na prisão, mas agora se o cara decide parar de se submeter ao chefe, ao político, ao policial, às leis desumanas, o que vai acontecer? Vai se foder e a foda vai ser pior do que ser currado por trás. Mas então parece que ele gosta disso, de ser fodido por quem está acima dele, tanto que não faz nada contra, nada. Na prisão é isso: você tem que se submeter, na boa, dar o cú na boa, ficar na sua, aceitar as regras, daí você continua vivo e de repente arranja um namorado, daí não tem mais que dar o cú pra todo mundo. Isso não é a vida na sociedade, se foder caladinho, calmo, pra não doer tanto? Você vai se foder o ano todo, mas vai ter quinze dias de férias; daí no fim da primeira semana diz: não aguento, tenho que voltar pra prisão. Sim, a praia é tipo o pátio da prisão, mas você gosta na verdade do endurecimento máximo. Quando a criança se apaixona pelos pais, é exatamente isso, se apaixona pelo mais forte, a quem vai ter que obedecer. É como o currado que se apaixona pelo currador. Se você é fodido por todo mundo na cela e aparece alguém que diz: “eu vou cuidar de você, se você for minha gatinha”, como não se apaixonar por ele?
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Eu sou fodido, então vou foder. Busque o mais fraco, sempre aparece alguém mais fraco. Dá no mesmo, é como se tornar alguém mau como os curradores da prisão; não é essa a grande função da prisão, criar caras maus, que encaram todas? Após anos em casa a gente aprende como se tornar um bom cidadão, a casa é um espaço de formação, a prisão também. O controle em todo lugar, sempre, em tudo e todos. Os olhos dos outros, meu olhar pra mim mesmo. Talvez as regras dos bandidos sejam menos duras, apenas mais violentas.
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O okupa é alguém que se quer pobre, cria valores diferentes. Odeia, não suporta a classe média. A classe média se acha letrada já que conhece todos os termos, jargões, conceitos impostos desde cima; acha normal a espetacularização da política, do Estado. O capitalismo nunca é contestado. Os okupas não existem pra classe média já que contestam os valores médios, e a classe média não quer ser contestada. Não houve mudanças nas lutas desde 2011, dizem, já que se interessam só pelo Estado, e como esse Estado lhes deixa com mais conforto moral e financeiro. Não estão nem aí se os ânimos, as subjetividades dos coletivos mudaram, se novas formas de luta apareceram. Querem o Estado, sempre Estado, e quem não quer Estado é louco. Feliz com sua segurança, a segurança da prisão, o classe média é tipo alguém com dinheiro na prisão, não vai ser morto nem currado desde que pague, tenha dinheiro pra pagar sua segurança; mas continua a ser um preso, tem que aceitar as regras, senão vai virar uma mulher. 
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Os hippies ainda acreditavam que dava pra cair fora, tentaram criar suas comunidades. Os okupas mostram que não tem como sair fora, então experimentam desde dentro. Viver com suas próprias regras, na cidade? Impossível. Se animalizar numa floresta? Suicídio? Como a morte ainda é vista como algo negativo, sobram as linhas de fuga, que é o sentido da vida, é a vida, a linha de fuga é a vida. A submissão é a morte em vida, as linhas de fuga são traçadas pra que a gente não morra.     
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Os presídios são um tipo de espaço, mais um tipo, dentro de uma prisão enorme, a sociedade. O presidiário não está nem aí se vai voltar pra prisão, já que a prisão é a vida, e ele sabe bem disso. Ele que sabe, é sua sabedoria: se socializar, viver em sociedade, é se sujeitar e sempre, com muita dor. A criança ama seu cercadinho e depois seu quarto e depois sua casa e depois se sente naturalmente bem na classe, no cercado do recreio e depois conhece as ruas e sabe caminhar na faixa e depois entra facilmente no jogo adulto, do trabalho. Tudo igual e sempre: úteros, cercadinhos, quartos, salas, casas, ruas, escolas, cidades, empresas, o leito de morte no hospital, o carro, o supermercado, o banco, a loja, o shopping, o restaurante, o hotel, o motel, a cidade de turismo, a praia, o posto de gasolina, a loja de conveniência, o sexo, as relações entre gêneros, entre idades, classes, raças; tudo tão igual, e sempre.... Isso é assim já que encontraram a forma certa, eficaz, perfeita pra bem viver? Ou é uma coisa simples e fácil, mais simples e fácil de controlar todos? Simplificam a vida ao máximo já que é a forma mais fácil de submeter. Ratos na gaiola são mais fáceis de serem controlados do que inúmeras espécies na floresta. Quem controla uma floresta? O tempo, as árvores, certos grupos mais fortes? Há grupos mais fortes na floresta?  
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E ainda somos modernos, radicalmente modernos? Há algo além, e nomeado, além das velhas dicotomias? Esquerda e direita, mais esquerda e mais direita, há algo além disso? Prazer e dor? Sonho, vigília? Loucura, sanidade? Idiotias e inteligência? Esse algo além, existe? É nomeado, afirmado, buscado? O controle é criação de um mundo rígido, mas simples, tipo arquitetura moderna funcional.
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A arte é caótica, todos sabem disso, mas ela na verdade é um elemento de bom gosto, que diz respeito à subjetividade burguesa; é um caos a ser vendido como espetáculo. O gay era caótico, barulhento, esteticamente estranho; hoje os gays são alvo de consumo, o mesmo com os negros, mulheres e outras minorias. O capitalismo quer consumidores e produtores, importante é a grana, que todos se submetam e consumam. O capitalismo reúne todos, todas as subjetividades diferenciais, e cria uma identidade única: o consumidor.  Dar o cú vai ser a próxima moda.

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sábado, 15 de julho de 2017

belas vidas; vidas especiais

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Eu tive amigos com belas vidas. Não eram bons alunos, mas sempre passavam de ano; eram mais calmos, namoravam firme meninas. Sim, se drogavam mas sabiam a hora de parar. Se pintava muita cocaína na banda arranjavam desculpa e iam pro interior visitar os avós. Como não queimavam o filme, os pais davam dinheiro, e isso ajudava em tudo, principalmente em conseguir as minas que não eram caídas. Uma mina, que não tava estudando, que bebia vodka na rua, de dezesseis anos – que podia ser a paixão do garoto skatista que toma todas –, esses amigos de belas vidas nem olhavam. Eles – os da bela vida – tavam nos mesmos ambientes que os malucos: Oswaldo, Lider, Porto de Elis, Araújo Viana, CB. Não era difícil de ver eles com o nariz sangrando, de ver eles com os olhos injetados, de ver eles sorrindo muito loucos; mas só que na segunda de manhã, bem, eles tavam na sala de aula. Entraram cedo na universidade e a partir daí viraram adultos, pessoas estudiosas e sérias, a carreira deles começou aí. Sim, ainda, faziam merdas, mas não se afundavam nelas. Belas vidas, de experimentações, loucuras, mulheradas, mas também de estudos, estudos sérios, que levaram eles pra carreira bem sucedida. Uma vida com belas histórias pra contar pros filhos, mas também com histórias especiais pra lembrar com os amigos no sábado de noite. Belas vidas, mas não necessariamente especiais. As vidas especiais são aquelas que se atualizam de alguma forma na arte. Muitos que escrevem sobre elas, viveram essas vidas. E isso não é algo positivo, de forma alguma; quem gostaria de levar uma vida especial como: a de Jean Genet, o prisioneiro gay? Ou a de Bukowski, o pobre alcoólatra? Ou a de De Quincey, o viciado em morfina, paupérrimo? Ou uma vida como a de Dean Moriarty, o viciadão, morto muito novo? Ou a de Carl Solomom, gay, louco, interno de manicômios? Ou uma vida como a de Dee Dee Ramone, quinze anos, viciado em morfina, michê? Ou como a de Edie Sedgwick, viciada, morta muito nova? Ou a vida da trupe de Miguel Piñero, gays, michês, prostitutas, viciados, mortos por overdose, cirrose, aids? E sim, todos esses foram imortalizados por fazerem arte; mas e aqueles que levam vidas parecidas mas não produzem obra? Os caras da ralé, exatamente os ídolos desses que viraram ídolos que citei acima. Quem gostaria de ser como eles, ser a ralé? Talvez apenas eles mesmos, aqueles que vivem essa vida já que é a única forma possível de vida antes do suicídio.
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Na adolescência, ficava puto já que nunca ganhava nos jogos tipo General, Poker, War. Meus amigos sempre ganhavam já que eu era o mais novo, eles tinham cinco anos a mais do que eu. Saquei que não tinha como vencer, como disse, eles eram bem mais velhos, e, então, vi que a vitória em um jogo não significa nada; é só um jogo. Daí comecei a fazer jogadas especiais, jogadas malucas, ousadas. O skate é isso, pra quem não compete; o cara só busca uma manobra legal. Pular mais alto do palco num show, isso é legal, ousado; como outras coisas idiotas, mas perigosas: beber de uma vez um quarto de uísque; fumar de uma vez um baseado enorme, em um pega; tomar elixir paregórico e vomitar, tomar de novo e vomitar, tomar de novo e vomitar; engolir caixas de estimulantes mesmo que dois comprimidos fossem mais do que suficientes; ter a infeliz ideia de meter uma quantidade enorme de pó embaixo da língua e depois fritar na cama. E tudo isso.... bem, são jogos, brincadeiras de garotos. Só que o cara vai ficando mais velho e tudo fica mais perigoso; pouquíssimos seguem na vida. O gênio do som de Manchester, um idiota, com muito estilo, ele diz: é, me deram uma grana pra gravar um grande disco, mas pra que fazer isso? Daí ele pega toda a grana e compra em crack. E o importante é isso, a loucura e não uma carreira de sucessos. Se faz arte não pra ser alguém de sucesso – apenas uma pessoa boba pensaria que se daria bem por fazer arte, poucos conseguem. Legal é não tentar ser um artista bem-sucedido, mas, sim, ser louco como muitos artistas, e isso já é arte. E quando se faz esse tipo de arte... bem, o cara faz já que não dá pra fazer mais nada. “Eu vou tomar um jeito na vida a partir de agora”, essa deve ser a máxima dos perdedores que se negam a ser perdedores. Em o Homem do Ano, o filme, o personagem principal entra num jogo que o leva cada vez mais pra baixo, exatamente quando decide se tornar um cidadão de bem. Renton em Trainspotting diz ao longo do filme que queria ter uma vida de bom cidadão. Dean Moriarty tentou muitas vezes ser um bom pai. Burroughs largava a morfina, mas continuava na loucura, tomando todas as outras drogas; ele era mais inteligente, entendia como as coisas funcionam. Um amigo meu de cinquenta anos tava em uma clínica e o pessoal dizia pra ele, os enfermeiros, eu mesmo dizia pra ele: cara, você tá velho, a gente sabe que você não vai parar, mas faz a loucura sem queimar o filme, e ele não conseguia não queimar o filme. Muitos pararam sim... Mas quantos morreram? E era isso, é isso: a droga ou a morte. E na real, quando a morte chegar, que chegue. Um dos músicos dos Dolls sai da clínica e compra na hora uma garrafa de uísque. O tio, meu vizinho aqui da banda, na Cidade Baixa, ele é alcoólatra, passa o dia sozinho, quieto, na dele, bebendo sua garrafa de canha com refri. Ele vai pra clínica com frequência, vai e volta. No dia que ele sai da clínica, compra garrafas de Sete Campos e mistura com refri. Bukowski quase morreu já que teve uma séria hemorragia no estômago; e daí o médico disse pra ele: mais um gole e você já era. Um mês depois tava bebendo como gente grande.