sábado, 16 de setembro de 2017

Eu me desprezo

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Eu me desprezo, não me suporto, tenho vergonha de mim mesmo. Minha empregada doméstica recebe por hora mais do que um professor, e eu acho que isso é sintoma da decadência social. Como alguém baixo, de segunda classe ganha mais do que um professor? Um professor tem que ganhar mais do que um limpador de rua, mesmo que o trabalho do limpador seja muito mais duro. Trabalho intelectual tem que ser valorizado, mais, sim, do que qualquer outro. Eu sou classe média, minha família pode pagar meus estudos, mas entrei na universidade pública. Sou rico e ganho financiamento de agências do Estado, e o Estado é sustentado pelo trabalho duro dos pobres. Eu não preciso do dinheiro, mas quanto mais, melhor. Que se foda o cara que tá na rua, eu quero fazer minha vida, isso que importa. Sim, eu luto pelos pobres em meu discurso, mas só nele. Tenho pena deles, sou paternalista, quero o bem deles desde que eu continue tendo cada vez mais dinheiro. Sou um gourmet, gosto de comidas especiais em restaurantes hipsters. O que eu pago por uma refeição poderia alimentar muitos que estão nos semáforos pedindo esmolas – passei por eles agora. Eles que se fodam. Troco de carro a cada três anos já que não gosto de carros velhos. Admiro pessoas que têm carros que custam centenas de milhares, e eu queria ter um carro assim; e esse dinheiro – o custo de um carrão de playboy – poderia ajudar quantas pessoas? Tenho uma casa grande, bem equipada que abriga minha família, enquanto muitas famílias, do mesmo tamanho, vivem em tendas na rua. Se fosse estipulado que cada pessoa poderia ter apenas 30 metros quadrados para si, que um casal poderia ter quarenta metros e dez a mais para cada filho, se isso acontecesse, provavelmente, todos os brasileiros teriam moradia digna. Mas eu não quero isso, quero mais e mais, e mesmo se eu nunca tiver, quero que as coisas continuem assim, já que amo os ricos, a riqueza; gozo ao pensar na riqueza. [......] Como carne; que se fodam os animais, mas ainda acho absurdo zoofilia. Sim, como carne já que é o alimento mais caro; assim mostro para todos que tenho dinheiro. Tiro fotos em restaurantes caros, por isso.  
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Preciso de mulheres, de gays, de negros, de pobres, para que eu esteja sempre acima; sim, sou um macho, branco, classe média. Eu fui castrado, então vou castrar; quero minha posição; que continue existindo o poder de uns sobre muitos. Sou egocêntrico; e sou tão egocêntrico que nem noto isso, já que meu discurso diz o tempo todo: sou um cristão humilde. Para mim, só interessa a macro política, sou um cara sério. Faço putaria apenas na vida privada; separo o privado do público. Quem fala o que eu não entendo está louco; quem discorda de mim é fascista. Eu silencio quem me contradiz. Sou um consumista, mas me auto qualifico como um lutador pelos direitos dos que não têm renda para consumir. Digo que sou libertário, mas não sei o que significa ser libertário. Eu valorizo intelectuais, já que sou um intelectual. Eu valorizo a instituição familiar já que tenho filhos e esposa. Tenho orgulho de mim, da minha vida, dos meus. Tenho orgulho, mesmo sendo tudo isso que estou expondo aqui. Tenho orgulho dos meus amigos ricos, que se deram bem na vida. Só gosto de gente como eu. Falo como poucos para marcar minha posição; uso palavras difíceis, que poucos entendem, para mostrar que sou alguém com um capital. Acredito no trabalho, trabalho remunerado. Odeio vagabundos. É, digo que sou inteligente, mas não consigo entender que a “valorização do trabalho” é uma palavra de ordem. A sociedade opressora é sustentada por isso. Não entendo o significado de “renda de existência”, já que valorizo apenas o trabalho assalariado. Não entendo que o cú, o cú dos gays, que ele colore o mundo, o deixa mais alegre, mais interessante; os gays e seus cús produzem mundos, o mundo. Cada prega que falta no cú de um gay, cada transa de um gay, cada fist fucking que um cú recebe, tudo isso deveria ser valorizado ao ponto de ser remunerado. [.........] Para mim, é normal duzentas mil pessoas em um festival de música pop patrocinado por um monopólio, é algo comum jogos contínuos de futebol que reúnem pelos menos 50 mil pessoas e é também comum um povo, e eu junto, em casa, nas redes sociais, enquanto pouquíssimas pessoas estão nas ruas contra o tal Estado fascista, que eu sou contra – melhor: 300 pessoas, Porto Alegre, um ano de golpe, Cidade Baixa, 8 horas e 30 da noite, sem polícia e bloqueios. [.....] Gosto de abstrações e de pesquisa teórica. Sou um intelectual. Quando a rua, a vida são meus objetos de pesquisa, abstraio de tal forma que a rua não aparece no meu trabalho. Odeio a rua, amo a torre de marfim. Chamo de empiria, conhecimento raso mostrar a vida de uma forma radicalmente direta, crua. Me escondo atrás de conceitos e não sei como eles funcionam, suas materializações na vida, nas ruas. [.........]
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Eu amo o mundo, minha vida, agradeço pela vida que me foi dada. O suicida, quem quer se matar, para mim, é um fraco, um coitado, alguém doente já que ele não é como eu, "eu, o bom cidadão, saudável, com bom senso". Quem quer se matar tem que ser impedido, precisa de ajuda médica, tem que ser hospitalizado. Quando alguém corta os pulsos, ou toma uma overdose, ou o que for, a primeira coisa que é feita é chamar os caras da área de saúde para salvá-lo. Ele pode ser internado contra a própria vontade e quase sempre é obrigado a ouvir o discurso moralista dos familiares; ele é obrigado a viver em um mundo que odeia, com pessoas que odeia, aceitar as coisas como elas são. E isso é assim, a vida, e eu afirmo essa vida. Se um drogado quer se matar – já que não pode mais se drogar, e a droga é a única coisa que permite que ele continue vivendo – eu digo: você tem que continuar vivendo como eu, como o bom cidadão, tem que viver a vida e sofrer como eu sofro. Uma dupla imposição: não pode se drogar, não pode se matar; o controle na forma de leis e moralismo. E mais..... aos filhos é perguntado: você quer nascer, ser meu filho, você quer fazer parte de tal povo, quer ser de tal classe social, ser de tal raça, você quer ser humano, viver em determinada época? Se perguntar antes é impossível... então, tudo isso é imposto, sem que haja escolha. Te fode, você vai ser humano e você não tem escolha.  
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Eu minto, manipulo, faço chantagens feito uma histérica para manter minha posição. Falo mal do senso comum, mas meu saber é baseado no senso comum. Penso como todos, a diferença é que sei falar e escrever. Como a maioria não sabe fazer isso, eu afirmo o senso comum dizendo: eles não pensam. Eu acho que conheço o mundo e tento mostrar para as pessoas o mundo, já que elas não pensam o mundo. Que todos se coloquem em seus lugares; meu lugar é o trono. Eu rio de todos, todos são risíveis. Digo para todos o tempo todo: esse ano eu li 50 livros, vi 30 filmes, viajei para a Europa... eu tenho que dizer, afirmar, mostrar. E todos os meus amigos fazem o mesmo, eles são iguais a mim; então, como há tantos iguais, nem me vejo como um elitista. [.......] Eu tenho que comer, como todos, uso as redes, como todos, tenho um corpo humano, como todos, mas, sim, sempre afirmo: eu sou alguém “diferenciado”. Sou tão controlado como todos, sou passivo como todos, aceito as coisas como todos, mas é isso: me acho importante. Não consigo nem imaginar uma vida não fascista, mas digo que eu luto por uma vida não fascista. Não reconheço que sou fascista, que eu quero manter as coisas como estão. Para mim, utopia é a sociedade perfeitamente controlada, na qual todas as pessoas sejam classe média e inteligentes como eu. [...........] Quando alguém diz: o corpo tem que ser conceituado; eu digo: não, o corpo humano é o corpo do homem moderno, formado por órgãos, é isso. Ou seja, afirmo o que todo mundo pensa; e sempre digo: essa é a forma que eu penso. Quando alguém diz: não tem muita diferença entre o capitalismo e o comunismo de Estado; eu digo: mas são regimes completamente diferentes, isso é o que eu penso. Quando alguém diz: só se pensa “com outros, ou seja, a partir do comum”; eu não entendo e digo: mas eu penso, isso é algo que diz respeito a uma pessoa, uma mente pensante. Ou seja, penso como todo mundo. Confundo sempre complexidade com extensão, quantidade. Para mim, complexidade é uma questão numérica. Ou seja, penso como todo mundo. [.....] Só falo palavras de ordem e repetições e repetições do senso comum. Falo o tempo todo em acabar com a opressão, mas para mim opressão é a de um Estado fascista. Só vejo o Estado. [..........] Como bem disseram Deleuze e Guattari e Negri e Hardt: a contracultura não foi uma revolução apenas de costumes, foi política, econômica, subjetiva. Mas eu gosto de cada coisa em seu lugar, penso assim, como todos, já que é a única forma de eu conseguir entender o mundo. Ser homossexual é uma questão cultural sim, mas também política, econômica, subjetiva, e diz respeito a todos. A inclusão das minorias cria uma vida diferente. Os gays, trans, travas, lésbicas, eles estão por aí, pelas ruas e não são mais agredidos; é outro mundo: a família mudou, a escola mudou, a empresa, as ruas, as cidades... tudo mudou a partir da inclusão: afetou a subjetividade das massas, alterou a política, o posicionamento dos políticos, as leis, alterou a economia, criou novos consumidores e produtores.
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Para mim, tudo é uma questão pessoal já que só vejo a mim mesmo e secundariamente as pessoas que estão na minha roda e as outras pessoas que estão ao redor; ou seja, como todos, só vejo o visível. Sim, tudo é uma questão pessoal, quando falam mal dos brancos, da classe média, dos intelectuais, sempre digo: mas eu não sou assim, você está errado. Acho que estão falando de mim e não do mundo. Sim, eu sou o centro do mundo, e tenho sempre que me afirmar. [...................] Sim, eu fecho os olhos para não compreender que sou um fraco, submisso. Eu me acho especial, eu ensino os fracos e submissos, os defendo; mas eu não aceito ser visto como eles. Então, quando dizem: direita e esquerda estão compactuando para se manterem, já que eu dependo, voto, acredito ou na direita ou na esquerda, eu digo: é mentira. Eu vou lutar eternamente para não aceitar que sou um fraco e submisso, que sou enganado e fodido desde sempre. Eu fecho os olhos para não enxergar isso.     

3 comentários:

Anônimo disse...

“Nós, porcos, somos trabalhadores intelectuais. A organização e a direção desta granja dependem de nós. Dia e noite velamos pelo vosso bem-estar. É por vossa causa que bebemos aquele leite e comemos aquelas maçãs.”
Eu, que tanto estudei para não ser uma empregada doméstica, agora estou desempregada e com inveja dela. E mais: pensando em ser uma de verdade (vejo muitas qualidades nessa profissão). Tornar-se um ser desprezível me angariou qualidades de reconhecer o próximo e considerar todo trabalho digno. Digno. Hipocrisia sem fim. Todo trabalho é digno, mas não para mim. “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.”

UERJ – metrô – quando eu descia aquela rampa do metrô eu só via carro importado. Sério. Eu não frequentava lá todos os dias, mas não sei que setor era aquele de carros que nunca um Gol se atreveu a estacionar lá. Eu era uma plebeia concursada. Eu me desprezo. Sim, passei dignamente no concurso, mas era temporário por ser o que era. Não pense muita coisa. Sou lixo.

Não dá para eu dar esmola ao pobre, já que passo correndo atrasada para o ensaio do teatro da igreja. Vou fazer uma peça sobre a miséria, sobre o amor e esses mendigos me parando na rua pedindo ajuda. Preciso me concentrar! Eles que aguardem a hora deles quando formos levar comida nas ruas junto com o grupo e eu poder fazer selfie e ficar famosa como uma boa religiosa. E sabe esses muçulmanos invadindo aqui o país? Então, tenho uma viagem missionária para fazer para evangelizar sabe quem? Os muçulmanos. Vou entrar em países onde se proíbe o cristianismo, vou ser mis-si-o-ná-ria! Tem noção do que é isso dentro do meu círculo? Sou uma que sacrifica a vida para levar a Palavra de Deus a esses que estão lá longe. Não vou converter esses que entraram aqui, sei que seria mais fácil, já que estão aqui, mas se eu fizer isso não vou ser mis-si-o-ná-ria. Não quero que essa casta não entre aqui no meu país.


Já contei que sou um lixo? Mentira, falsa modéstia. Todo mundo me acha o máximo. Eu sou bonita, inteligente, carismática e vou conseguir um trabalho e sair do meu tormento. De repente, até um marido. Alguém vai um dia me ajudar, mas não você que me elogiou. Eu sirvo com minha inteligência e carisma para os outros, não para você. Eu sirvo para ser uma boa esposa, mas não para o seu filho. Para se casar com meu filho, não pode ser uma depressiva maluca como você. Mas você vai sair dessa (ganho mais tapinha nas costas) e você não é maluca, pare com esses pensamentos suicidas. Sabe aquele reflexo que temos quando alguém esbarra na gente? É da natureza esse reflexo defensivo, mas é covardia se matar.

Eu coloquei uma capa no Facebook contra o suicídio. Setembro amarelo, mas estou me lixando para os que estão em desespero dizendo que querem se matar. Quem quer se matar não fala e escreve. Vai lá, faz e pronto. E são covardes, porque se mataram em vez de enfrentar a vida. Mas minha capa está lá do setembro amarelo. Todo mundo aplaude minha iniciativa de cada mês conscientizar sobre algo. Outubro é rosa (câncer de mama), novembro é azul (câncer de próstata) e dezembro é vermelho (luta contra a aids). Sobre o dezembro, coloco a capa, mas, sei lá, é certo mesmo que não pega apertando a mão ou falando de perto com esses contaminados?

Estou há mais de uma semana sem dormir à noite. Vai passar, você vai conseguir. Pode me ajudar? Não, você é inteligente demais para eu te arrumar algo, para eu jogar uma corda para você sair do poço e dessa miserável depressão que te amarrou os braços e para que você não tenha que ver a morte como única saída. Mas a vida está passando e não consigo me libertar. Ah, problema todo mundo tem, mas você é boa e vai sair dessa. Vou sair daqui para colocar uma foto sorridente no Facebook. Já que ninguém entende que sou o ser mais desprezível do que qualquer pessoa, incapaz de conseguir qualquer coisa, vou postar algo para ganhar curtidas. Melhor não ver o dia lindo, é por isso também que prefiro dormir um pouco mais de dia para ele acabar logo e eu não me sentir mais lixo e inútil.

Patricia.

diego de carvalho disse...

Na boa Patricinha, vc estah forçando a barra. Eu não sou analista nem analisado ou analisando. Há toda uma tradição no campo da arte, filosofia, etc, que nasce na modernidade, que busca apresentar, mostrar, experimentar formas diferenciais de vida. As experimentações foram muitas, inúmeras, mas o comum entre os da tradição é como disse: essa busca de formas de vidas diferenciais. Falar na primeira pessoa, algo comum na tradição, serve para quebrar com o moralismo; é uma técnica. O idiota se esconde, esconde o rosto, se esconde atrás de metáforas, por medo de que o vejam como um pária. Mas a metáfora só serve para mostrar como é difícil de ser criativo. E os da tradição dizem: sim, somos párias, somos monstros, não somo bons cidadãos, e que se foda se.

Anônimo disse...

Dieguinho...rs não entendi direito no que forcei a barra, mas tudo bem. Olhe, eu não pensei em absolutamente nada no sentido de estrutura textual na hora que escrevi aqui não. Sabem aqueles desabafos que a gente escreve, escreve e manda? Fiz isso. Só misturei coisas minhas (acredite na minha insônia)com ficção, que, sinceramente, nem sei te dizer se é ficção. Exemplo quando escrevi do setembro amarelo. Eu realmente tenho a capa no meu Facebook pela minha relação com o tema, mas me lembrei dos outros meses e joguei como "eu" colocando todas as capas porque vejo gente fazendo tudo quanto é campanha e não ajudando nada. Tenho um conhecido artista visual que costumava escrever dessa forma textos curtinhos. Se ele estava com algum problema, ele escrevia o problema e inventava uma história em cima dele para parecer que tudo era ficção, mas como eu o conhecia sabia que o texto dele estava baseado em fatos...(mas ele usava mais a comédia como história).
Se eu fosse pensar em um texto para escrever ia sair de uma seriedade insuportável e eu não estou com cabeça para escrever assim. A única coisa que para mim é difícil é eu ler algo e não me lembrar de algum livro, isso é um pouco forte em mim. No mais...

Valeu aí pela resposta. Agora não devo voltar tão cedo por aqui. Quero resolver algumas coisas e vou aproveitar mais a madrugada para isso. Abraço.